Das pedras que brotam do chão em Sertão, a vida esperneia por um espaço e precisa encontrar brechas para irromper. Nesse mar rochoso, pessoas buscam espaços onde possam plantar, colher, viver e beber a terra. Teve um tempo que era comum ver gente andando e andando para cada vez mais longe, carregando a casa no ombro e a fome no corpo. O espinhaço aparente e a pele manchada enredavam o caminho percorrido e a falta de mantimentos. Era apenas quando uma dessas pessoas passava que Maria da Conceição tinha contato com outras gentes.
Ao redor de casa não havia mato nem árvores. Tirava a pouca água que bebia do poço que possuía no terreiro e o único indício de vida ali era ela e a horta e algumas outras poucas plantas que cultivava para alimentar-se. Vivia rodeada de terra e mais nada na pequena casa de pau a pique construída pelo pai — que repousava também naquela terra. E é da terra que Maria vive. Do que a terra dá e de rezar para que o poço nunca seque e ela tenha que sair de casa em busca de água.
Já faz um ano que não passa ninguém por aquelas bandas e a casa mais próxima fica a doze longas horas de caminhada nunca feita. Os dias eram preenchidos por ariar os pratos e panelas, buscar água para aguar o quintal, mover o par de cabras de lugar e preparar o que comer. As duas cabras — um casal — não eram criadas para comer, mas porque gostava da companhia. A moça, no entanto, era uma grande frouxa, e o rapaz, então, nem se fala. Maria esperava o dia em que morreriam e ficaria só de uma vez por todas. A casa não tem calendário e nem relógio. Se orienta pelas estrelas, pela luz do sol e pelo movimentar das cabras que, ao findar do dia, voltavam para o terreiro para dormir. Naquelas terras eram só Maria, as cabras, as plantas e a vastidão de Sertão.
Os dias se passavam e Maria passava por eles exercitando a fala consigo, com as plantas e as cabras. Falava sobre a vida, sobre a vontade de não ser mais só, sobre a falta que faz um andarilho passar por aquelas terras e sobre a falta que sente do pai — a mãe morreu no parto. O que colhia e não comia virava combustível para o fogareiro que acendia quando necessitava aquecer ou cozer algo. E fazia algumas semanas que ela temia estar ficando brôca. Achava que era a solidão, mesmo assim o medo da loucura dos pensamentos sempre esteve ali, desde pequena até hoje morando nesse lugar de sozinhos.
Quando vivos, os pais da mulher escolheram aquele para ser local de morada porque muitas pessoas estavam indo praquelas bandas em busca de trabalho. Havia uma grande fazenda que seria oportunidade perfeita de emprego para todos. Mas como tudo o que é bom dura pouco, com a última palha posta no telhado da casa, veio a derradeira notícia de que o fazendeiro estava falido pois aquelas eram terras improdutivas. Nada nascia e quanto mais capinavam, mais pedras aparecia.
Sem mais recursos para voltar ao lugarejo de onde vieram e como o chão da casinha era fértil e tinha um pequeno poço, resolveram ficar. E logo chegou Maria para alegria da mãe e desespero do pai, que ao deparar-se com a esposa morta e uma filha recém-nascida, custou a aprender como lidar com aquele sentimento. Eram arriados um pelo outro. Um casal apaixonado e que tinha as mãos dadas nos momentos de alegria e nos momentos de tristeza — principalmente nestes.
Maria da Conceição leva os dias em uma jornada contra a fome, a tristeza e a solidão. Por vezes se pegava pensando no pai ao colher as alfaces que ele tanto gostava. Em outros momentos, era fria como uma geleira ao cortar cenouras, tomates e coentros — tinha uma alimentação baseada em legumes, verduras, vegetais e água. Não tinha pedra que desse leite, ou árvore que desse fruto. No chão era tudo areia e um pequeno canteiro.
Com tanta solidão, os dias que Maria adoece são dias em que ela espera que vá morrer. E apesar de serem muito raros, a natureza, mais uma vez, salva a vida da mulher que não sabe a idade que tem. Os olhos tristes entregam a si mesma e entregavam a quem passasse que a solidão a castigava. O maior sonho da mulher era ter uma filha, mas aquilo nunca seria possível — exceto por uma única vez, quando um andarilho parou junto à casinha em busca de água, prontamente oferecida. Pediu permissão e passou aquele dia em descanso no terreiro dela. Era um moço novo, com cabelos pretos e poucos, rosto manchado e pequenas rugas querendo aparecer. O pé de galinha já estampava o sorriso, mas nem isso era capaz de desviar o olhar apaixonado de Maria.
Ao entardecer, quando o sol era mais fresco, chamou-a para seguir em caminhada junto dele. Ele iria à cidade grande lá do sul do país. Era uma longa caminhada que logo fora recusada. Não gostava de andar, muito menos queria deixar pai e mãe ali sozinhos. Despediram-se com um aperto de mão e Maria assistiu seu príncipe encantado ficar cada vez menor e mais distante no vasto e rochoso areal. A oportunidade de sair daquele fim de mundo isolado desperdiçada por um capricho.
Aquele não foi o primeiro, tampouco foi o último homem que convidou Maria para seguir em caminhada rumo ao sonho de melhores condições para viver. Fato era que ninguém aguentava ficar ali mais nenhum momento e com o passar dos anos Maria assistiu todos os conhecidos e desconhecidos se afastarem cada vez mais. Ela, todavia, parecia ter criado raízes naquele chão. Não havia conhecido outra paisagem, nem iria.
O destino estava fadado a mofar em um chão de poeira e solitude. O exílio voluntário a afastava cada vez mais da vida e sociedade e a isolava de todos os sentimentos mundano. Agarrou-se às cabras e à religião.
Depois de colher, cozer, comer e cuidar das cabras, colocava o terço nas mãos e rezava para quem fosse que a ouvia. Aquele terço havia sido da mãe e hoje era um dos poucos bens que possuía. Rezava por um filho que a fizesse companhia, por um andarilho qualquer que a oferecesse companhia para algum lugar, nenhum lugar. Rezava que as cabras não morressem e que o poço não secasse. Pensar em deixar a casa em busca de água era um pesadelo e sair Sertão afora sozinha era pesadelo ainda pior.
Já era maio, o sol estava no auge do calor e Maria estava cansada de esperar as chuvas ano após ano. Ao meio-dia comia alguma coisa sentada à porta da frente da casa. O suor lhe escorria a testa e pingava no pé. A gota que encontrava o chão logo evaporava e retornava ao ciclo da vida. A que encontrava com o pé de Maria encontrava sulcos e veios e fendas. O suor escorria sem parar quando a mulher passou mal a primeira vez. Foi para dentro da casa para deitar-se e passou o restante do dia assim e o restante da semana aprendendo a lidar com os enjoos.
No quarto dia de enjoo fez chá de boldo para que ajudasse ao menos a diminuir, mas só o cheiro do preparo a fez piorar e jogar o chá fora. A alimentação ficou pouca e a água cada vez mais rara. Quando os enjoos começaram a melhorar já faziam cinco luas e cinco sóis que a mulher se contorcia na cama. Foi quando começou a se alimentar melhor e a perceber que seus pés estavam levemente inchados — logo foram para dentro da bacia com água quente.
Ela fazia o que podia para manter-se bem e viva. Enjoos, cólicas, pé inchado. Os sintomas do que quer que ela tivesse foram melhorando e apesar de perceber que pequenos esforços a cansavam, aos poucos ela voltou aos afazeres da casa mesmo que ainda sentindo um incômodo, mas fato é que precisava se alimentar e, também, cuidar da horta para que nada morresse.
Os enjoos, que haviam melhorado começaram a voltar. E dessa vez Maria ficava pior com o cheiro do mormaço que subia ao longo do dia. Não tinha jeito que desse, era o jeito se deitar. A barriga se revirava e sentia, na garganta, um ranço de tudo, com tudo e para tudo. Aos poucos, outros cheiros se solidarizaram com o mormaço: era o cheiro de umidade do poço, o cheiro de tomate, o cheiro da terra, o cheiro das cabras, o cheiro da noite, o cheiro dela. Todos se juntaram ao mormaço para fazer mal à mulher e não sobrou nenhum que fosse bom.
Passado um mês do início dos enjoos e estranhezas, Conceição passou a desejar leite de cabra. Ora, as cabras que lhe faziam companhia não davam leite e nunca tiveram nenhuma cria para estimular. E devagarinho, o desejo por leite foi tomando forma dos animais até ser um desejo de cabra. Queria comer carne de cabra — absurdo!, nunca mataria suas companheiras para satisfazer a vontade de comer carne. Ficaria a imaginar o gosto e a textura. A desejar.
Os dias iam acontecendo e novos desejos surgindo. Começou a perceber um inchaço na barriga. Estava ficando gorda e logo a bermuda que tanto gostava não mais lhe servia: ficava cada dia mais apertada, a obrigando a usar o único vestido que possuía. Aumeno não passa ninguém por essas banda e eu posso andar nua por aí até perder esses quilo. Gostava da ideia e, com certeza, faria aquilo. A barriga de Conceição crescia. Em um ritmo perceptível, mas não a ponto de a perturbar — ainda.
Na terceira lua depois do primeiro enjoo Maria notou que além da barriga estar bastante crescida, não teve mais seus dias difíceis do mês. Não sangrava mais pela buceta ou sentia vontade de destruir a casa e os pedregulhos de Sertão. Não tinha mais tantos enjoos e não parava de fazer xixi, já tendo um rastro no local onde ela se agachava no terreiro. Só podia estar prenha.
Já fazia ano que não passava ninguém por ali. Tampouco Maria estivera com um homem em sua vida. Era como a virgem cuja história é tão contada, no entanto, ao contrário da da história, ninguém falou nada com a mulher de Sertão. Continuava no meio de nada e sem uma viva alma para dar conta da vida dela. Era o maior sonho que tinha, ter um bruguelo. Se o pensamento estivesse certo, descobriria dali algumas luas.
Outra lua transcorreu e a cada dia o ventre dela ficava mais proeminente. A cada lua que passava crescia também o desejo de ser mãe e o medo da morte no parto, como a própria mãe. O medo e o desejo passaram a crescer e caminhar juntos à medida em que a barriga crescia. Nove luas depois, continuava a crescer e Maria passou a esperar o derradeiro dia do nascimento da criança, mesmo que não tivesse roupas, teria como alimentar duas bocas até que a filha, ou o filho, tivesse idade de andar junto dela para longe das pedras de Sertão.
A décima lua chegou carregada de perguntas: quanto tempo mais levaria a criança a crescer? Como não tivera ninguém para conversar por todos esses anos e o pai morrera antes de qualquer conversa sobre o assunto, restava à mulher esperar dia após dia e estar pronta para quando a criança nascesse — o que achava que seria natural e que não fosse doer. Mas como isso iria acontecer mesmo, por onde ela vai sair? Deve ser pelo imbigo.
As perguntas, as dúvidas e a ânsia de ter uma companhia — àquela altura uma das cabras havia morrido e se juntado deitados naquela terra. As luas seguiram seu caminho para além de Sertão e Maria da Conceição já contava doze delas. E noite após noite, dia após dia, rezava para que chegasse o momento derradeiro. Deitava-se de barriga para cima e parecia uma das grandes pedras que brotavam do chão no lugarejo. Áridas e solitárias, tanto quanto possa-se imaginar. Lá onde a vida precisa encontrar brechas para irromper.